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Ameaça nas ruas
Em meio à desorganização urbana e social em que vivemos, não nos faltam motivos e razões para aborrecimentos, desconfortos, constrangimentos. São buracos e outras ciladas nas calçadas e faixas de rolamento, trombadinhas, ruídos muitas vezes alucinantes e outras agressões e obstáculos. Além da necessidade, mais amedrontadora, de andar e rodar nas ruas como se vivêssemos numa cidade em tempo de guerra, com atenção redobrada, vidros dos carros abaixados, de olho em quem entra no transporte coletivo. Um dos maiores flagelos das cidades grandes é, porém, a presença e ação incontornáveis dos assim ditos flanelinhas, teoricamente guardadores de carros (mesmo que não vigiem nada), que abusam da paciência e do bolso de motoristas, achacam, ameaçam quem resiste.
Já temos chamado atenção para tal abuso, correlato ao daqueles que jogam água de duvidosa procedência nos automóveis, pelos sinais de trânsito fechados, sem pedir licença. Mas nunca se tomou nenhuma providência administrativa para coibir tais práticas abusivas. A polícia está habitualmente ausente das vias públicas e os agentes de trânsito só se ocupam em aplicar multas. Em toda a Região Metropolitana e cidades maiores do interior, somos submetidos a isso há anos sem esperança de se atender às advertências e reclamações dos jornais e do público. Os flanelinhas não se limitam a explorar a paciência dos motoristas. Impõem suas próprias leis e regulamentos, além de pretenderem dar lições de como manobrar e estacionar.
Sem limites, certos da omissão ou mesmo da conivência de policiais e outros funcionários públicos, eles ameaçam e intimidam quem não concorda em “pagar proteção”, e aproveitam a oportunidade para arrombar veículos e atentar contra a propriedade. Quem não concordar com suas exigências de pagamento antecipado, como acontece quando a procura por vagas é maior, geralmente encontrará seu carro danificado e pode até nem encontrá-lo. Se for de dia, as vagas públicas para estacionamento também são controladas por eles: o cidadão, além de ter de pagar pelo talão do estacionamento oficial, ainda tem de desembolsar mais alguma coisa pela desavergonhada chantagem.
Seria demais cobrar dos poderes públicos, tão ciosos da renda proveniente de taxas e multas, providências contra marginais e criminosos que tomaram conta da “profissão” de flanelinha? Seria tão difícil encontrar a aplicar soluções? Os defensores da inevitabilidade de atividades como essa, apresentando como motivo a miséria ou a falta de postos de trabalho decentes, argumentarão que os flanelinhas estariam trabalhando, em vez de assaltar e matar, como outras vítimas das injustiças e desigualdades sociais. Argumento inconsistente, pois não é a população em geral que tem de pagar por maus governos, que não cuidam do desenvolvimento, da geração de riquezas e empregos.
Ela tem de arcar com a responsabilidade de votar mal, quase sempre em políticos que buscam um mandato ou nomeação para terem acesso a mensalões e outros esquemas de apropriação de dinheiro público. Mas autoridade é autoridade, governo é governo. As camadas mais conscientes e politizadas da sociedade, que sustenta parasitas e incompetentes, têm o direito e o dever de exigir providências capazes de inibir ações de malfeitores, como aquelas de estamos tratando.
Como a sociedade e a mídia estão cansadas de solicitar a sucessivos governos, bastaria que os poderes públicos pusessem nas vias urbanas seus policiais, agentes, fiscais. O problema é que as autoridades têm direito a carro oficial, com motorista, vaga garantida para estacionamento, tudo pago pelas vítimas dos flanelinhas, e têm mais é que cuidar de suas carreiras e projetos de atingir cargos mais rendosos. |