VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Mulher da classe média esconde agressões
Publicado em 07.03.2004 – Jornal do Comércio
Receio de expor a si mesma e à família se torna empecilho para denunciar violência doméstica
e muita luta contra o preconceito e a violência, as mulheres – independentemente de nível social, raça, cor e nacionalidade – voltam a ser o foco das atenções amanhã, dia 8 de março, quando é comemorado oficialmente o Dia Internacional da Mulher. A data, mais do que uma simples homenagem, pode ser encarada como o momento ideal para se fazer um alerta. Embora tenha procurado cada vez mais as delegacias especializadas para assegurar seus direitos e denunciar agressões, uma parcela significativa de mulheres ainda passa muito tempo guardando entre quatro paredes as marcas da violência doméstica.
“A classe média sofre em silêncio. Prefere evitar escândalos e mediar conflitos, seja procurando um advogado, seja escondendo os hematomas debaixo de um bom terninho”, ressalta a delegada e coordenadora do Departamento Policial da Mulher da Polícia Civil de Pernambuco (DPMUL), Cláudia Molina, que participa de chat sobre o tema amanhã, às 15h, no JC OnLine, onde assina uma coluna sobre direitos femininos no Canal Cidadania.
É importante salientar que a violência intrafamiliar não está relacionada a nível social ou econômico. O cenário de humilhações, ameaças e sofrimento é observado em todas as classes, sem distinção. “O que observamos no dia-a-dia das delegacias, no entanto, é que as mulheres mais pobres têm comparecido em maior número do que as mulheres de classe média, que têm mais medo de se expor na mídia e de perder o status”, revela a delegada Mariluce Ferreira Coelho, que comanda a primeira e mais movimentada Delegacia da Mulher do Estado, localizada no bairro de Santo Amaro, no Recife.
No balanço de atendimentos de 2003, 4.595 mulheres prestaram queixa no núcleo policial, mas apenas 20% desse total de denunciantes pertenciam à classe média. “A procura vem aumentando, mas o número ainda é considerado muito pequeno”, avalia Mariluce.
Rosana*, 39 anos, bem que tentou denunciar as agressões que recebia há mais de oito anos do marido, um advogado de sobrenome conhecido, mas sempre abandonava o propósito antes de cruzar a porta da delegacia. “A possibilidade do meu caso chegar aos ouvidos das minhas amigas e vizinhos simplesmente me apavorava. A vergonha que eu sentia de ter apanhado do meu marido era, muitas vezes, maior do que a própria dor física“Após uma noite de pancadaria, tomei coragem, peguei meus filhos pequenos e fui para a casa de familiares. De lá, reuni forças e consegui, finalmente, prestar queixa contra ele e me separar. Se soubesse que ia ser tão bem acolhida na delegacia, teria ido antes”, conta.
AMARRAS – A dependência financeira e a emocional são outros fatores que influenciam no adiamento de uma atitude contra a violência no lar. Casada há 10 anos, Patrícia*, 29, teve que agüentar calada as agressões verbais e físicas do companheiro, porque não trabalhava e não queria pedir ajuda à família. “Foi o pior momento da minha vida. Sem emprego e totalmente dependente do dinheiro e do amor dele, só me restava engolir o choro e aceitar suas desculpas. Hoje estamos um pouco melhor, mas agora eu trabalho e não tenho mais receio de um dia ter que sair de casa, caso ele volte a me bater novamente.”
Escrito por Telma Arcoverde às 11h08
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Amanhã Dia Internacional da Mulher
Mulheres têm poucos motivos para comemorar data no Estado Publicado em 07.03.2004, às 08h00 - Jornal do Comércio
Em vez de festa, um alerta. O Dia Internacional da Mulher é lembrado em todo mundo nesta segunda-feira, mas as pernambucanas têm poucos motivos para comemorar a data. Dados divulgados recentemente pelo Disque-Denúncia de Pernambuco revelam que a violência doméstica continua sendo uma realidade para muitas mulheres do Estado. E o que é pior: o agressor, na maioria das vezes, é o próprio companheiro.
Um total de 1.896 mulheres procuraram o serviço telefônico anônimo para denunciar maus-tratos, lesões corporais, abuso sexual, cárcere privado e agressões verbais. A pesquisa levou em consideração o registro de ocorrências entre junho de 2000 até fevereiro de 2004.
O cenário do crime, em grande parte dos casos, é a própria residência da vítima, sendo conseqüentemente os próprios maridos e companheiros os responsáveis pela autoria dos delitos, seguidos por filhos e outros familiares mais próximos.
No levantamento ficou constatado também que as vítimas de violência doméstica têm medo de procurar as delegacias especializadas e denunciar os agressores, uma vez que elas recebem constantes ameaças de morte. A Central Disque-Denúncia tem sido, portanto, uma saída para muitas dessas mulheres, que buscam o anonimato e sigilo absoluto das informações.
No interior do Estado, a situação não é diferente. De acordo com estudo realizado na Central Disque-Denúncia Agreste, 310 ligações foram registradas a respeito do assunto Violência à Mulher, entre dezembro de 2002 e março de 2004. Cerca de 86% das denúncias foram provenientes de Caruaru.
As agressões, de acordo com o levantamento, são, normalmente, diárias e mais intensas no período noturno. Os agressores, em sua maioria estão ébrios ou drogados.
CAMPANHA - Criado no início deste ano, o DD Mulher tem o objetivo de realizar um atendimento especializado a mulheres vítimas de violência, através de uma rede de proteção formada por entidades de defesa que atuam no Estado.
Além de receber denúncias e encaminhar as vítimas ao serviço policial, o DD Mulher fornece orientações de como as mulheres deverão proceder para evitar ou escapar de situações de violência doméstica.
O serviço funciona 24h e é uma iniciativa do Disque-Denúncia em parceria com a Secretaria de Defesa Social com o apoio do Centro de Assistência e Apoio às Vítimas de Violência - CEAV, o Departamento Policial da Mulher - DPMUL e a Gerência de Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos - GETSH que compõem uma rede de proteção.
Informações e denúncias pelo 3421.9595 (Grande Recife) e 3719.4545 (Agreste).
Escrito por Telma Arcoverde às 10h23
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